O futuro do sector social será definido pela sua capacidade de passar de um papel compensatório no interior do capitalismo para um papel sistémico na configuração de um novo modelo económico regenerativo centrado na dignidade humana, nos direitos e nos limites planetários (OCDE, 2003; Rethinking the Welfare State, 2025). Na prática, isto implica que as organizações sem fins lucrativos, os movimentos sociais e as empresas sociais deixem de se ver como actores periféricos e passem a ser co‑arquitectos dos sistemas de governação global, financiamento e produção (World Economic Forum, 2013; UNDP, 2020).

Em várias regiões, a sociedade civil e as organizações sem fins lucrativos já passaram de prestadores de serviços que colmatam falhas do Estado‑Providência para actores centrais na inovação social, participação democrática e responsabilização (OCDE, 2003; Salamon & Anheier, 1999, citado em OCDE, 2003). Esta transformação está ligada à crise do modelo clássico de bem‑estar, pressionado pelo envelhecimento demográfico, dívida, globalização e disrupção tecnológica, o que obriga os Estados a repensar a forma como protegem os cidadãos e redistribuem recursos (Rethinking the Welfare State, 2025; OCDE, 2003). Vários autores descrevem uma “revolução associativa global”, em que a sociedade civil organizada se expande de forma significativa em escala e diversidade organizacional, desafiando a visão tradicional do sector como meramente residual (Salamon & Anheier, 1999, citado em OCDE, 2003). Neste contexto, o futuro do sector social depende de conseguir influenciar não apenas a política social, mas também as regras dos mercados, dos dados e da governação climática (World Economic Forum, 2013; UNDP, 2020).

No centro do modelo económico emergente está a economia social e solidária, que prioriza as pessoas e os objectivos sociais em detrimento do capital e trata o lucro como um meio e não como um fim (Social Economy Europe, 2021; OCDE, 2003). Cooperativas, mutualidades, associações e fundações estão a ser re‑imaginadas como laboratórios de governação democrática, distribuição justa e transição ecológica, e não como excepções marginais à lógica de mercado (Social Economy Europe, 2021). As suas práticas de propriedade partilhada, tomada de decisão participativa e reinvestimento de excedentes são cada vez mais apresentadas como modelos para economias mais inclusivas e resilientes perante as alterações climáticas, a desigualdade e a erosão democrática (Social Economy Europe, 2021; Rethinking the Welfare State, 2025). A expansão da economia social e solidária está também intimamente ligada à territorialização dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), em que organizações de base comunitária co‑desenham políticas públicas com municípios e outros actores locais (Local 2030, 2019).

Um segundo pilar desta nova arquitectura económica é o chamado “quarto sector”, composto por empresas de benefício colectivo que integram propósitos sociais e ambientais na sua própria estrutura jurídica, operando simultaneamente em ambiente de mercado (Sabeti, 2020; IE Center for the Governance of Change, 2026). Estas organizações híbridas incluem B‑corps, cooperativas orientadas por missão, iniciativas de civic‑tech e empresas verdes de impacto que procuram alinhar retornos financeiros com benefícios públicos mensuráveis (Sabeti, 2020). Organizações internacionais e think tanks defendem crescentemente que a expansão destas empresas de benefício é essencial para alcançar os ODS e enfrentar desafios sistémicos, das alterações climáticas à desigualdade (Sabeti, 2020; IE Center for the Governance of Change, 2026). Vários governos respondem criando novos estatutos jurídicos, incentivos fiscais e normas de reporte para reconhecer e apoiar estas entidades como um pilar distinto da economia (Sabeti, 2020).

Neste cenário, as fronteiras entre Estado, mercado e sociedade civil tornam‑se mais porosas, dando origem a arranjos complexos de governação que ultrapassam os silos sectoriais tradicionais (World Economic Forum, 2013; OCDE, 2003). Espera‑se que as organizações da sociedade civil actuem simultaneamente como vigilantes, parceiras e inovadoras, gerindo alianças com governos, filantropia e sector privado sem perderem a sua independência e voz normativa (World Economic Forum, 2013). Modelos de governação em rede e multinível permitem decisões conjuntas em diferentes escalas, aumentando o potencial de respostas integradas às crises sociais e ecológicas (Local 2030, 2019). Contudo, esta interdependência também aumenta os riscos de captura e desvio de missão, sobretudo quando as organizações sociais dependem de financiamento de curto prazo ou de filantropia corporativa associada a interesses reputacionais (Badelt, 1999; World Economic Forum, 2013).

Em termos financeiros, o sector social terá de ultrapassar a dependência histórica de donativos voláteis e subsídios de projecto, adoptando modelos de mobilização de recursos mais diversificados e sustentáveis (OCDE, 2003). Financiamento combinado (blended finance), investimento de impacto, obrigações sociais e contratos baseados em resultados estão a ser desenvolvidos para orientar capital privado para resultados sociais e ambientais, combinando inovação com preocupações reais de responsabilização e assimetrias de poder (World Economic Forum, 2013; Sabeti, 2020). A emergência de filantropos em mercados emergentes, o crowdfunding digital e instrumentos financeiros comunitários introduzem maior pluralismo, mas reforçam a necessidade de regulação robusta e medição transparente de impacto (World Economic Forum, 2013). Para moldar o novo modelo económico, o sector social terá de negociar enquadramentos de financiamento que tratem o investimento social como bem público de longo prazo, e não apenas como classe de activos de nicho (Rethinking the Welfare State, 2025).

A dimensão laboral é igualmente central para a trajectória do sector. Muitas organizações sem fins lucrativos enfrentam uma crise de força de trabalho marcada por burnout, baixos salários e elevada rotatividade, o que compromete a capacidade de prestar serviços e fazer advocacia (Johnson Center for Philanthropy, 2025). Esta crise é paradoxal, uma vez que o sector defende publicamente direitos humanos e trabalho digno e, ao mesmo tempo, reproduz frequentemente condições precárias no seu interior (Johnson Center for Philanthropy, 2025; Badelt, 1999). Um sector social orientado para o futuro terá de reformar a sua governação interna e práticas de emprego, adoptando salários justos, liderança inclusiva e culturas organizacionais participativas como normas incontornáveis, e não apenas ideais (WSM, 2020). Investir no bem‑estar das equipas, em aprendizagem contínua e em competências digitais será crucial para manter relevância numa economia marcada pela automação, inteligência artificial e plataformização (Rethinking the Welfare State, 2025; OCDE, 2003).

A transição digital vai alterar profundamente a forma como a sociedade civil se mobiliza, presta serviços e exerce influência no novo modelo económico (World Economic Forum, 2013). Redes sociais, análise de dados e plataformas digitais podem reforçar a participação e a responsabilização, mas expõem organizações e activistas a vigilância, desinformação e riscos cibernéticos (World Economic Forum, 2013). A legitimidade do sector social dependerá cada vez mais da sua capacidade de lidar com ética dos dados, enviesamentos algorítmicos e direitos digitais, em vez de tratar a tecnologia como instrumento neutro (Rethinking the Welfare State, 2025). Em simultâneo, infra‑estruturas digitais podem sustentar novas formas de solidariedade transnacional, permitindo que lutas locais – da justiça climática aos direitos laborais – se conectem, aprendam e se organizem à escala planetária (World Economic Forum, 2013; Sabeti, 2020).

Geopoliticamente, o futuro do sector social será desigual, já que os contextos políticos nacionais e as regulações do espaço cívico divergem significativamente (WSM, 2020; World Economic Forum, 2013). Em alguns contextos, o espaço cívico está a encolher através de legislação restritiva, constrangimentos financeiros e narrativas que descredibilizam a sociedade civil organizada como “agente estrangeiro”, enquanto noutros os governos reconhecem explicitamente a sociedade civil como parceira estratégica para o desenvolvimento inclusivo e implementação dos ODS (WSM, 2020; UK Government, 2018). Esta divergência implica que a capacidade de o sector influenciar a nova ordem económica dependerá de conseguir defender e expandir o espaço cívico, construir amplas coligações e falar de forma credível às preocupações das comunidades marginalizadas, e não apenas a doadores e elites (European Economic and Social Committee, 2017; World Economic Forum, 2013). Onde o espaço cívico se fecha, redes transnacionais e mecanismos de solidariedade serão essenciais para proteger defensores de direitos, manter vozes independentes e preservar normas de direitos humanos (World Economic Forum, 2013).

Em última análise, a relevância do sector social num novo modelo económico mundial dependerá da sua capacidade de passar da gestão pontual de problemas para a transformação sistémica de instituições, normas e relações de poder (Social Economy Europe, 2021; Rethinking the Welfare State, 2025). Isto exige uma mudança estratégica de narrativa: da mitigação caritativa do dano para a construção colectiva de uma economia justa, descarbonizada e centrada no cuidado, em que limites sociais e ecológicos definem as regras do jogo (Social Economy Europe, 2021; IE Center for the Governance of Change, 2026). Organizações sem fins lucrativos, movimentos sociais e empresas de benefício colectivo terão de actuar como comunidades epistémicas, produzindo propostas de política baseadas em evidência e intervindo em espaços deliberativos onde se negoceia o futuro da tributação, do comércio, do trabalho e do bem‑estar (World Economic Forum, 2013; OCDE, 2003). Se forem bem‑sucedidas, o sector social não se limitará a adaptar‑se a um novo modelo económico; ajudará a definir um modelo em que a economia serve a sociedade e o planeta, e não o inverso (World Economic Forum, 2013; Sabeti, 2020).

Referencias:

Badelt, C. (1999). The role of NPOs in policies to combat social exclusion. Washington, DC: World Bank.

European Economic and Social Committee. (2017). The future evolution of civil society in the European Union by 2030. Brussels: EESC.

IE Center for the Governance of Change. (2026). The fourth sector. Madrid: IE University.

Johnson Center for Philanthropy. (2025). The nonprofit workforce is in crisis. Grand Rapids, MI: Grand Valley State University.

Local 2030. (2019). Localizing the SDGs through social and solidarity economy. New York, NY: United Nations.

Organisation for Economic Co‑operation and Development. (2003). The non‑profit sector in a changing economy. Paris: OECD Publishing.

Rethinking the welfare state in the global economy. (2025). Global Solutions Initiative. Berlin: GSI.

Sabeti, H. (2020). The fourth sector: Can business unusual deliver on the SDGs? New York, NY: United Nations Development Programme.

Social Economy Europe. (2021). Social economy as a new model for the future of Europe and the world. Brussels: SEE.

UK Government. (2018). Civil society strategy: Building a future that works for everyone. London: HM Government.

World Economic Forum. (2013). The future role of civil society. Geneva: World Economic Forum.

WSM. (2020). The future of social protection. Brussels: WSM

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