O atual panorama de financiamento das organizações sem fins lucrativos (NPO) caracteriza‑se por uma reconfiguração estrutural que afasta o centro de gravidade dos tradicionais subsídios de desenvolvimento a fundo perdido para modelos de apoio orientados para o investimento, o empreendedorismo e a inovação. Esta transformação não é meramente conjuntural, mas reflete uma recomposição profunda das relações entre cooperação para o desenvolvimento, filantropia e capital privado, assente em lógicas híbridas que procuram conciliar retornos sociais e financeiros (Bugg‑Levine & Emerson, 2011; Hörtnagl, 2025). Neste contexto, iniciativas como a Global Gateway da União Europeia exemplificam um novo paradigma em que projetos de grande escala, “bancáveis” e capazes de mobilizar o setor privado moldam o espaço de oportunidades para a sociedade civil, ao mesmo tempo que a Quarta Revolução Industrial e a inteligência artificial (IA) intensificam a competição por recursos escassos entre NPO, empresas sociais e atores tecnologicamente avançados (European Commission, 2024, 2025; Eurodad, 2024).
A passagem de financiamento a fundo perdido para uma lógica de investimento é particularmente visível na crescente centralidade do investimento de impacto enquanto instrumento do século XXI para canalizar capital para fins sociais. A literatura demonstra que o investimento de impacto opera como prática híbrida, na qual as lógicas filantrópica e financeira coexistem e obrigam fundações e outros financiadores institucionais a recalibrar a sua tolerância ao risco, os horizontes temporais e as expectativas de retorno (Hörtnagl, 2025; Brest & Born, 2013). Evidências empíricas indicam que os recursos filantrópicos são, cada vez mais, mobilizados não como subsídios isolados, mas como instrumentos catalisadores — por exemplo, subsídios recuperáveis, empréstimos sem juros ou garantias — destinados a atrair investimento privado e a apoiar organizações “investment‑ready” (Jackson & Harji, 2012; Mission Investors Exchange, 2025). Na prática, isto traduz‑se numa contração relativa do financiamento a fundo perdido para trabalho de desenvolvimento de longo prazo, e numa crescente expectativa de que as NPO apresentem modelos de negócio, fluxos de receita ou inovações escaláveis alinhadas com portefólios de investimento de impacto dos financiadores (Young, 2017; RSM, 2025).
Para as NPO, as consequências desta viragem são ambivalentes. Por um lado, o foco no empreendedorismo cria oportunidades para organizações que conseguem operar como empresas sociais, recorrer a financiamento misto e desenvolver sistemas de gestão de impacto capazes de satisfazer as exigências de investidores institucionais (Brest & Born, 2013; BlueMark, 2024). Por outro lado, corre‑se o risco de marginalizar atores cujo contributo principal reside na advocacia, na defesa de direitos ou no empoderamento comunitário — domínios estruturalmente difíceis de monetizar e que dependem, em grande medida, de apoio filantrópico a fundo perdido (Ebrahim, Battilana, & Mair, 2014; Eurodad, 2024). O novo regime de financiamento tende a favorecer organizações com capacidades sofisticadas de gestão financeira, infraestruturas de dados e competências para formular a sua proposta de valor em termos de retorno social semelhante ao investimento, reforçando assim assimetrias existentes no seio da sociedade civil (Fidelity Charitable, 2025; RSM, 2025).
A estratégia Global Gateway da União Europeia ilustra de forma particularmente clara esta recomposição da lógica de financiamento ao desenvolvimento. Apresentada como resposta baseada em valores ao défice global de infraestruturas, a Global Gateway ambiciona mobilizar até 300 mil milhões de euros até 2027 nas áreas da conetividade digital, clima e energia, transportes, saúde, educação e investigação, recorrendo sobretudo a empréstimos, garantias e à mobilização de capital privado, no quadro de uma abordagem “Equipa Europa” (European Commission, 2024, 2025). Análises conduzidas por redes da sociedade civil mostram que a Global Gateway funciona menos como um instrumento clássico de subsídios e mais como uma plataforma geopolítica de investimento, centrada na criação de ambientes de negócios favoráveis e de cadeias de valor resilientes, em particular no Sul Global (CONCORD Europe, 2025; Eurodad, 2024). Embora a Comissão Europeia tenha instituído um Mecanismo Consultivo para a Sociedade Civil e as Autoridades Locais e promovido fóruns dedicados à participação de atores não estatais, a intervenção das NPO permanece muitas vezes limitada a espaços consultivos, situados a jusante das decisões centrais de investimento (Local2030, 2023; WECF International, 2025).
Esta arquitetura institucional tem implicações relevantes para a disponibilidade de financiamento orientado para as NPO. Organizações capazes de se posicionar como parceiras em projetos de infraestruturas, digitalização ou transição verde — frequentemente através de consórcios com empresas e bancos de desenvolvimento — podem aceder a pipelines da Global Gateway, assistência técnica ou mecanismos de partilha de risco (European Commission, 2024; CONCORD Europe, 2025). Em contrapartida, NPO de menor dimensão ou com vocação predominantemente de advocacia, que historicamente dependiam de subsídios europeus para iniciativas de governação, direitos humanos e inclusão social, enfrentam a perspetiva de envelopes de subvenções em contração e de um ecossistema de financiamento mais fragmentado (Eurodad, 2024; WECF International, 2025). Esta mudança de paradigma levanta questões normativas sobre quem beneficia efetivamente das grandes estratégias de investimento e se o tecido social que as NPO sustentam — através da participação, da responsabilização e do conhecimento local — é devidamente reconhecido em arquiteturas dominadas por critérios de bancabilidade e avaliações de risco soberano (Ebrahim et al., 2014; Jackson & Harji, 2012).
Em paralelo, a Quarta Revolução Industrial está a reconfigurar tanto as capacidades operacionais das NPO como a dinâmica competitiva do financiamento. As ferramentas de IA e de análise de dados oferecem um potencial significativo para melhorar a angariação de fundos, a focalização de programas e a medição de impacto, como evidencia a literatura emergente sobre transformação digital no setor não lucrativo (Kuenzi, Stewart, & Walk, 2022; ScholarsArchive, 2020). Sistemas de correspondência de subsídios baseados em IA, por exemplo, permitem alinhar perfis organizacionais com oportunidades de financiamento relevantes à escala, reduzindo custos de procura e, em teoria, ampliando o acesso a doadores, sobretudo em mercados temáticos saturados (Al‑Hasnawi et al., 2024). Todavia, estas mesmas tecnologias criam uma clivagem digital: organizações com mais recursos estão em melhor posição para investir em IA, competências especializadas e estruturas robustas de governação de dados, aumentando a sua competitividade em concursos de inovação, enquanto NPO de base comunitária, com menor capacidade institucional, correm o risco de ser ainda mais marginalizadas (Joseph Rowntree Foundation, 2024; IC² Institute, 2025).
A IA generativa acentua adicionalmente esta pressão competitiva. Estudos recentes indicam que NPO que incorporam IA em funções de angariação de fundos e comunicação conseguem aumentar de forma substancial o volume e a sofisticação de candidaturas, contactos com doadores e relatórios, frequentemente sem acréscimo proporcional de recursos humanos (Joseph Rowntree Foundation, 2024; Giving Compass, 2024). Contudo, esta aceleração não expande automaticamente o volume global de recursos disponíveis; antes eleva o padrão mínimo de qualidade e complexidade das propostas consideradas “competitivas”, tornando mais difícil a posição de organizações sem acesso a ferramentas ou formação em IA (Kuenzi et al., 2022; IC² Institute, 2025). Neste sentido, a IA funciona como multiplicador de poder para quem já se encontra integrado no emergente ecossistema de investimento e inovação, podendo simultaneamente reforçar desigualdades estruturais no campo não lucrativo (ScholarsArchive, 2020; Joseph Rowntree Foundation, 2024).
Perante este cenário, a liderança das NPO enfrenta o imperativo estratégico de se envolver de forma crítica — mas não acrítica — com o financiamento orientado para o empreendedorismo e com a IA. No plano financeiro, a literatura sugere que as organizações mais bem‑sucedidas são as que integram instrumentos de investimento de impacto e modelos híbridos de receita numa estratégia coerente e orientada pela missão, em vez de adotarem lógicas comerciais de forma meramente oportunística (Young, 2017; Jackson & Harji, 2012). Tal implica reforçar capacidades internas em gestão financeira, recolha de dados e medição de impacto, ao mesmo tempo que se reivindica a preservação de financiamento a fundo perdido para dimensões do trabalho da sociedade civil que não podem ser comodificadas, como a defesa de direitos, a organização comunitária e a fiscalização democrática (Ebrahim et al., 2014; CONCORD Europe, 2025). No plano tecnológico, um número crescente de autores defende uma adoção “crítica” da IA, ancorada em princípios de ética dos dados, equidade e governação participativa, para que a inovação digital contribua para democratizar, em vez de esvaziar, o valor público produzido pelas NPO (Kuenzi et al., 2022; Data Feminist AI scholars, 2023).
Em última análise, o momento atual caracteriza‑se menos por uma escassez absoluta de recursos e mais por uma profunda reordenação dos mecanismos de alocação desses recursos e dos critérios de elegibilidade. A passagem dos subsídios às “gateways”, do desenvolvimento ao empreendedorismo e do analógico à competição mediada por IA obriga as NPO a repensar estratégias de financiamento, modelos organizacionais e formas de construção de coligações, mantendo‑se, em simultâneo, ancoradas nos seus compromissos normativos com a justiça social, a dignidade humana e a participação democrática. Se a sociedade civil quiser evitar tornar‑se um ator periférico num regime de desenvolvimento dominado pelo investimento, terá de afirmar não apenas a sua eficiência instrumental, mas também o seu papel constitutivo na definição dos horizontes sociais e éticos dentro dos quais operam a finança, a tecnologia e a política (Ebrahim et al., 2014; Eurodad, 2024).
Referencias:
Al‑Hasnawi, A., et al. (2024). AI‑augmented grant matching systems for urban nonprofits. Engineering and Technology Journal, 9(2), 1–15.
BlueMark. (2024). Impact management discipline: The key to effective impact investing and grantmaking.
Brest, P., & Born, K. (2013). Unpacking the impact in impact investing. Stanford Social Innovation Review, 11(4), 22–31.
CONCORD Europe. (2025, September 15). Understanding the EU’s Global Gateway: Why civil society must pay attention.
Data Feminist AI scholars. (2023). Addressing the promise and peril of AI for nonprofit management through a data feminist pedagogy.
Ebrahim, A., Battilana, J., & Mair, J. (2014). The governance of social enterprises: Mission drift and accountability challenges. Research in Organizational Behavior, 34, 81–100.
Eurodad. (2024, October 8). Who profits from the Global Gateway? The EU’s new strategy for development cooperation.
European Commission. (2024, April 15). Global Gateway civil society and local authorities advisory platform.
European Commission. (2025, December 9). Global Gateway.
Fidelity Charitable. (2025). 2025 Giving report.
Giving Compass. (2024, October 17). Your next donation could fuel nonprofit AI innovation.
Hörtnagl, T. (2025). Foundations’ responses to the hybrid practice of impact investing. SSRN Working Paper.
IC² Institute. (2025, February 25). The perils and promise of AI in the nonprofit sector.
Jackson, E. T., & Harji, K. (2012). From blueprint to scale: The case for philanthropy in impact investing.
Joseph Rowntree Foundation. (2024). Grassroots and non-profit perspectives on generative AI.
Kuenzi, K., Stewart, A. J., & Walk, M. (2022). Artificial intelligence and data for nonprofit organizations. Journal of Nonprofit Innovation, 4(1), 1–20.
Local2030. (2023, October 23). Global Gateway: Commission launches civil society and local authorities dialogue platform.
Mission Investors Exchange. (2025, July 31). Five impact investing tools foundations can use in times of crisis.
RSM. (2025, September 30). Nonprofits may benefit from the growing popularity of impact investing.
WECF International. (2025, October 15). Civil society’s role in the EU’s Global Gateway.
Young, D. R. (2017). Financing nonprofits and other social enterprises. Edward Elgar.
