A economia social e solidária (ESS) passou das margens do debate político para o centro das discussões globais sobre desenvolvimento sustentável. Em 2023, a Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a sua primeira resolução sobre a “Promoção da Economia Social e Solidária para o Desenvolvimento Sustentável”, reconhecendo que as entidades da ESS podem desempenhar um papel vital na concretização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Este reconhecimento foi reforçado por documentos e briefings políticos posteriores que apresentam a ESS como uma alavanca chave para enfrentar a pobreza e a desigualdade “para além do crescimento”, enfatizando direitos humanos, trabalho digno e resiliência climática. Neste contexto, as organizações não-governamentais (ONGs) deixam de ser meras executoras periféricas e emergem como atores centrais na arquitetura institucional da ESS.

Ao mesmo tempo, está a tornar-se mais clara a evidência empírica sobre o contributo das ONGs para os resultados de desenvolvimento. Análises recentes do Banco Mundial mostram que regiões que sofreram uma desregisto massivo de ONGs registaram uma deterioração mensurável da estabilidade social, sugerindo que a presença de ONGs “faz diferença” em termos de coesão social e desenvolvimento. Isto é particularmente relevante num contexto marcado por crises sobrepostas—emergência climática, pandemias e choques geopolíticos—em que modelos tradicionais de desenvolvimento centrados apenas no crescimento têm falhado em produzir resultados inclusivos e resilientes. Nesta nova economia política, a questão já não é se as ONGs importam, mas como se podem reposicionar no seio da ESS para produzirem mudança sistémica em vez de respostas fragmentadas e baseadas em projetos isolados.

A resolução das Nações Unidas sobre a ESS é mais do que um gesto simbólico. O texto incentiva os Estados‑Membros a criar quadros jurídicos favoráveis, incentivos fiscais e regimes de contratação pública socialmente responsáveis que reconheçam e reforcem entidades da ESS, incluindo cooperativas, mutualidades, associações e empresas sociais. Ao fazê-lo, liga explicitamente a ESS ao trabalho digno, aos serviços sociais, à igualdade de género, à proteção ambiental e ao desenvolvimento económico local, tratando-a como uma ferramenta transversal de política pública, e não como um nicho marginal. Em paralelo, a Task Force Interinstitucional das Nações Unidas sobre Economia Social e Solidária (UNTFSSE) intensificou o seu trabalho, reunindo agências da ONU, a União Africana e redes globais para integrar a ESS nas agendas internacionais de desenvolvimento.

Um policy brief recente das Nações Unidas, coordenado pelo Relator Especial sobre pobreza extrema, enfatiza que estratégias centradas apenas no crescimento económico já não são suficientes para erradicar a pobreza de forma justa e sustentável. Em alternativa, identifica as organizações de ESS como veículos para uma “economia de direitos humanos”, capazes de incorporar justiça social, governação participativa e sustentabilidade ecológica na vida económica. Esta formulação é importante porque posiciona a ESS não como um mecanismo compensatório perante falhas de mercado e do Estado, mas como uma alternativa estrutural que redefine o que conta como sucesso económico. Neste cenário, as ONGs são chamadas a passar de intervenções focadas na caridade para o papel de co‑arquitetas de novas instituições e normas económicas.

A investigação e a análise de políticas convergem na ideia de que as ONGs funcionam como uma forma de infraestrutura cívica que permite à ESS operar. Em muitos países de rendimento baixo e médio, as ONGs preenchem lacunas deixadas pela despesa pública limitada em assistência social, saúde e educação, tornando-se canais centrais para a prestação de serviços essenciais. Porém, estudos recentes do Banco Mundial vão mais longe: mostram que uma maior densidade de ONGs numa determinada região está associada a melhores resultados de desenvolvimento e que a sua retirada pode minar a estabilidade social. Isto sugere que as ONGs não se limitam a executar projetos; contribuem para a densidade institucional e para o capital de confiança que sustentam comunidades e mercados resilientes.

Evidência proveniente de estudos sobre desenvolvimento comunitário e sustentabilidade sublinha também o papel multidimensional das ONGs na promoção do desenvolvimento comunitário sustentável, desde cuidados de saúde alternativos até educação e justiça social, sobretudo em contextos de baixa capacidade estatal. As ONGs tendem a dispor de um conhecimento granular dos contextos locais, de metodologias participativas e da capacidade de convocar múltiplas partes interessadas, incluindo autoridades públicas, atores privados e grupos de base comunitária. Estas capacidades são diretamente relevantes para a ESS, onde a governação democrática, a participação dos membros e a propriedade comunitária são princípios centrais. As ONGs podem atuar como tradutoras entre lógicas institucionais: ajudam comunidades a navegar programas públicos, apoiam governos a desenhar políticas inclusivas e assistem entidades emergentes da ESS a profissionalizar-se sem perder a sua finalidade social.

Apesar destas forças, o modelo tradicional de ONG enfrenta críticas bem conhecidas. Muitas organizações ficam presas em ciclos de financiamento de curto prazo, dependentes das prioridades dos doadores e sujeitas a regimes de conformidade que privilegiam a prestação de contas “para cima” em detrimento da responsabilidade perante as comunidades. Esta “projetização” fragmenta iniciativas locais, alimenta a concorrência entre organizações e duplica esforços, prejudicando a consolidação de ecossistemas robustos de ESS a longo prazo. Além disso, quando as ONGs compensam falhas do Estado sem desenvolver ação política e advocacia construtiva, correm o risco de normalizar o subinvestimento em sistemas públicos e de despolitizar desigualdades estruturais.

Os debates em curso, incluindo o Roteiro da ONU para “Erradicar a Pobreza para Além do Crescimento”, convidam as ONGs a reimaginar os seus papéis. Em vez de se posicionarem sobretudo como prestadoras de serviços, as ONGs inseridas em ecossistemas de ESS podem tornar‑se facilitadoras de mudança sistémica. Isto implica uma passagem de projetos isolados para a construção de instituições duradouras, como cooperativas sociais, fundos comunitários, redes de ajuda mútua e plataformas multiactor. Requer também um envolvimento explícito com as relações de poder: apoiar comunidades a reivindicarem direitos, a co‑governarem serviços e a desenharem as regras das economias locais, ao invés de apenas acederem a programas definidos externamente.

Várias linhas de prática e investigação demonstram como as ONGs podem atuar como componentes integrais de ecossistemas de ESS. Em primeiro lugar, as ONGs são mediadoras de conhecimento na governação global emergente da ESS. A expansão da UNTFSSE para incluir atores regionais como a União Africana e redes como a Social Economy Europe reflete anos de advocacia e de contributos técnicos destas organizações. As ONGs ajudam a trazer experiências de base para debates multilaterais, influenciando resoluções, policy briefs e enquadramentos que, por sua vez, abrem espaço a estratégias nacionais de ESS.

Em segundo lugar, as ONGs desempenham frequentemente papéis catalisadores na construção e no financiamento de entidades da ESS. Estudos sobre a infraestrutura financeira da economia social destacam a importância de bancos de desenvolvimento, investidores de impacto e programas públicos, mas mostram também que as ONGs são, muitas vezes, intermediárias decisivas para que cooperativas sociais, associações e empresas comunitárias acedam a estes instrumentos. Ao oferecer assistência técnica, apoio à governação e mecanismos de partilha de risco, as ONGs permitem que organizações da ESS escalem a sua atuação sem comprometer a missão. Esta função intermediária ganha peso quando alinhada com políticas nacionais de ESS e com regimes de contratação pública socialmente responsáveis, como se observa nas discussões europeias mais recentes.

Em terceiro lugar, as ONGs contribuem para a monitorização e a responsabilização em iniciativas de governação global, incluindo os ODS. Investigação sobre organizações da sociedade civil na América Latina mostra que as ONGs desempenham um papel crítico na monitorização da implementação dos ODS, produzindo dados independentes e pressionando governos a enfrentar desigualdades e grupos marginalizados. No quadro da ESS, esta função estende‑se à esfera económica: as ONGs podem ajudar a avaliar se novos investimentos “verdes” ou “inclusivos” respeitam efetivamente os direitos laborais, promovem a igualdade de género e reforçam o controlo comunitário sobre recursos. Desta forma, posicionam‑se como guardiãs do núcleo normativo da ESS, e não apenas do seu braço operacional.

Para que as ONGs possam concretizar plenamente o seu potencial na economia social e solidária, terão de assumir uma mudança estratégica: de implementadoras de projetos para construtoras de ecossistemas. Essa transformação passa por três reorientações principais. Primeiro, as ONGs devem alinhar, de forma deliberada, as suas missões e programas com estratégias nacionais e locais de ESS, quando existam, ou contribuir ativamente para a sua formulação quando ainda não estão definidas. Ancorar o trabalho das ONGs em quadros de política de ESS mais amplos reduz a fragmentação e aumenta a probabilidade de que pilotos bem-sucedidos se traduzam em mudança institucional, e não apenas em histórias de sucesso isoladas.

Segundo, as ONGs precisam de investir em inovação de governação e práticas participativas. Numa lógica de ESS, a legitimidade decorre não apenas de indicadores de impacto, mas também da forma como as decisões são tomadas e de quem detém o poder. ONGs que experimentam modelos de propriedade partilhada, conselhos comunitários, assembleias deliberativas ou orçamentos participativos alinham‑se melhor com o ethos democrático da ESS e modelam o tipo de instituições que pretendem promover. Isto implica também repensar a prestação de contas, colocando a responsabilidade para com comunidades e pares ao mesmo nível da responsabilidade perante financiadores.

Terceiro, doadores e decisores políticos terão de ajustar práticas para tornar esta transformação possível. A evidência mostra que as ONGs podem melhorar significativamente os resultados de desenvolvimento quando conseguem colaborar com governos, em vez de operar sob regulamentações restritivas ou condições de financiamento precárias. Financiamento flexível e de longo prazo, quadros jurídicos de apoio e espaços inclusivos de formulação de políticas são pré‑condições essenciais para que as ONGs atuem como parceiras estratégicas na construção de ecossistemas de ESS. Sem estas condições, continuarão presas ao curto‑prazo e a relações transacionais que enfraquecem o potencial sistémico da economia social e solidária.

Reconfigurar as ONGs como atores centrais da economia social e solidária não é uma questão semântica, mas uma escolha política e institucional. O reconhecimento global atual da ESS cria uma janela de oportunidade para redesenhar a relação entre Estado, mercado e sociedade civil em torno de princípios de solidariedade, democracia e sustentabilidade. As ONGs que aproveitarem este momento—reorientando os seus papéis, fortalecendo a sua governação e enraizando-se em ecossistemas de ESS—poderão ajudar a transformar resoluções de alto nível em alternativas concretas, vividas no quotidiano das comunidades.

References (APA)

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