A ordem mundial emergente é cada vez mais policêntrica, caracterizada por crises sobrepostas, multilateralismo fragmentado e um fosso crescente entre os riscos globais e a capacidade dos Estados para os governarem (Acharya, 2017; Weiss, 2013). Neste contexto, o sector social – organizações da sociedade civil, entidades sem fins lucrativos e economia social e solidária – passa de ator periférico de bem‑estar a centro estratégico de poder na governação global (World Economic Forum, 2013).​

A sociedade civil tem atuado, há décadas, como “empreendedora de normas”, influenciando regimes internacionais sobre minas antipessoais, direitos humanos, justiça climática e responsabilidade corporativa através de redes transnacionais de advocacy (Keck & Sikkink, 1998; Marchetti, 2013). Ao recentrar questões como desigualdade, colapso ecológico e vigilância digital como problemas de justiça e democracia, e não meramente técnicos, os atores da sociedade civil alargam o que é considerado legítimo no debate sobre a ordem mundial (Risse, 2012).

No plano institucional, o sector social constitui hoje um pilar essencial da governação global multistakeholder, ao lado dos Estados e dos mercados (Kaldor, 2003; Kaldor & Selchow, 2022). A experiência em áreas como o combate à corrupção mostra que só coligações que envolvem governos, setor privado e sociedade civil organizada conseguem produzir níveis significativos de transparência e responsabilização em regimes transnacionais complexos (Kaldor & Selchow, 2022).​

O sector responde também a lacunas concretas de governação, operando onde a capacidade ou a vontade política do Estado são limitadas. Organizações da sociedade civil desempenham papéis cruciais na ajuda humanitária, proteção social, consolidação da paz e desenvolvimento local, sobretudo em contextos frágeis e afetados por conflitos (Panth, 2018). Ao garantir acesso à saúde, educação e serviços básicos, contribuem para assegurar um nível mínimo de ordem social e segurança humana de que depende qualquer arquitetura mais ampla de governação global (European Training Foundation, 2024).​

Neste ecossistema, a economia social e solidária (ESS) tornou‑se emblemática da capacidade do sector social para reconfigurar normas económicas. A resolução de 2023 da Assembleia Geral das Nações Unidas sobre a “Promoção da Economia Social e Solidária para o Desenvolvimento Sustentável” reconhece a ESS como contributo para a erradicação da pobreza, o trabalho digno e a localização dos ODS (United Nations General Assembly, 2023). Ao inscrever propriedade democrática, reciprocidade e benefício comunitário nas práticas económicas, as organizações da ESS contestam a centralidade do capitalismo orientado para o acionista e propõem modelos alternativos de desenvolvimento inclusivo e sustentável (UN Inter‑Agency Task Force on Social and Solidarity Economy, 2024).​

A contribuição do sector para a Agenda 2030 e para os direitos humanos reforça a sua importância sistémica. As abordagens baseadas em direitos humanos são cada vez mais reconhecidas como fundacionais para o cumprimento de metas dos ODS relacionadas com pobreza, igualdade de género, educação e proteção ambiental, sobretudo em contextos de conflito (International Institute for Sustainable Development, 2025). Atores profissionais e comunitários, incluindo assistentes sociais e movimentos de base, traduzem estas normas universais em políticas e práticas concretas, fazendo a ponte entre compromissos globais e realidades locais (International Federation of Social Workers, 2024).​

Contudo, a crescente influência do sector social não está isenta de tensões. O encerramento do espaço cívico, o ressurgimento autoritário, a desinformação e o risco de captura minam a autonomia da sociedade civil e o seu papel como contrapoder democrático (CONCORD Europe, 2025). Diversos autores alertam ainda que a sociedade civil pode reproduzir desigualdades e interesses de elites se carecer de mecanismos internos de responsabilização, representatividade e reflexividade sobre o seu próprio poder (Howell & Pearce, 2001; Marchetti, 2013).​

Na nova ordem mundial em formação, o contributo mais decisivo do sector social poderá residir, precisamente, na redefinição dos critérios de legitimidade na governação global. Ao exigir que regras e instituições globais se alinhem com princípios de dignidade, participação e responsabilidade ecológica – e não apenas com interesses nacionais ou corporativos estreitos – a sociedade civil e a ESS tornam‑se co‑autoras de novas arquiteturas normativas (Risse, 2012; World Economic Forum, 2013). Se conseguirem preservar a independência, aprofundar enraizamentos sociais e institucionalizar estes princípios em leis, políticas e práticas organizacionais, não se limitarão a adaptar‑se a uma nova ordem; contribuirão ativamente para escrever as suas regras.

Referências:

Acharya, A. (2017). After liberal hegemony: The advent of a multiplex world order. Ethics & International Affairs, 31(3), 271–285.​

CONCORD Europe. (2025). Civil society powerhttps://concordeurope.org/our-work/our-priorities/civil-society-power/

European Training Foundation. (2024). The role of civil society organisations in human capital development and lifelong learning (Thematic paper). European Training Foundation.

Howell, J., & Pearce, J. (2001). Civil society and development: A critical exploration. Lynne Rienner.

International Federation of Social Workers. (2024, October 31). Social work and the United Nations Sustainable Development Goals (SDGs)https://www.ifsw.org

International Institute for Sustainable Development. (2025, February 25). Leveraging cooperation for human rights and SDGs in conflict zones. SDG Knowledge Hub. https://sdg.iisd.org

Kaldor, M. (2003). Global civil society: An answer to war. Polity Press.

Kaldor, M., & Selchow, S. (2022, April 5). Role of civil society in global governance [Public lecture]. Kapuscinski Development Lectures. https://kapuscinskilectures.eu

Keck, M. E., & Sikkink, K. (1998). Activists beyond borders: Advocacy networks in international politics. Cornell University Press.

Marchetti, R. (2013). Civil society, global governance, and the quest for legitimacy. In T. Risse (Ed.), Global governance – Building on the civil society agenda (pp. 29–47). European Union Institute for Security Studies.

Panth, B. (2018). The role of civil society in accelerating global actions for a world free of poverty and hunger. United Nations Department of Economic and Social Affairs.​

Risse, T. (Ed.). (2012). Governance without a state? Policies and politics in areas of limited statehood. Columbia University Press.

UN Inter‑Agency Task Force on Social and Solidarity Economy. (2024, October 14). Social and solidarity economy and the Sustainable Development Goals (SDGs). United Nations. https://unsse.org

United Nations General Assembly. (2023). Promoting the social and solidarity economy for sustainable development (A/RES/77/281).​

Weiss, T. G. (2013). Global governance: Why? What? Whither? Polity Press.

World Economic Forum. (2013). The future role of civil society. World Economic Forum. https://www3.weforum.org/docs/WEF_FutureRoleCivilSociety_Report_2013.pdf

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