2026 não abre simplesmente um novo ciclo de calendário; inaugura uma pista estratégica de cerca de 1,1 mil milhões de dólares em oportunidades de financiamento orientadas para impacto, com mais de 280 concursos ativos ou iminentes dirigidos a organizações da sociedade civil, empresas sociais e atores de investigação em todo o mundo (Fundraising Dispatch, 2026; Impact Funding, 2025). Esta expansão quantitativa insere‑se numa mudança mais ampla no desenvolvimento global e no financiamento de impacto, em que os doadores passam a favorecer intervenções sistémicas e plurianuais em detrimento de subsídios fragmentados por projeto, em linha com argumentos sobre a necessidade de fluxos de capital sustentados e integrados para apoiar transformações estruturais (Asian Development Bank, 2021; United Nations Conference on Trade and Development, 2024).​

Cerca de 30% das oportunidades atuais são verdadeiramente globais em termos de âmbito, permitindo que as organizações concorram independentemente da localização da sua sede, desde que consigam demonstrar vias credíveis de replicação e impacto transfronteiriço (Impact Funding, 2025; United Nations Conference on Trade and Development, 2024). Esta tendência dialoga com a literatura sobre sociedade civil transnacional e governação em rede, que sublinha como as coligações transfronteiriças e os processos de aprendizagem podem amplificar a mudança social para além das jurisdições locais (Asian Development Bank, 2021; United Nations Conference on Trade and Development, 2024). Em paralelo, cerca de 25% da “pipeline” é direcionada para África e a região MENA, com forte incidência em meios de subsistência rurais, saúde mental e apoio psicossocial (MHPSS) e reformas de governação local, espelhando evidências de que uma fraca tutela, subfinanciamento e baixa prioridade política têm historicamente limitado a integração da saúde mental nos cuidados primários em muitos países de baixo e médio rendimento (Rahim et al., 2021; Climate Policy Initiative, 2024).​

Revisões sistemáticas sobre a governação dos sistemas de saúde mental na África Subsariana e no Sul da Ásia mostram que défices de liderança, financiamento e recursos humanos limitam a expansão de serviços equitativos, o que ajuda a explicar porque é que os portfólios de financiamento atuais apoiam cada vez mais intervenções integradas de meios de subsistência e MHPSS, que abordam simultaneamente determinantes económicos e psicossociais do bem‑estar (Rahim et al., 2021; Duman et al., 2024). Evidência recolhida em contextos de conflito sugere ainda que combinar apoio aos meios de subsistência com serviços de saúde mental pode gerar impactos transformadores, indo além de um foco restrito em resultados clínicos para abarcar dimensões mais amplas de dignidade, agência e participação social (Duman et al., 2024). Neste sentido, a concentração temática das oportunidades de 2026 em África e MENA sinaliza não apenas uma resposta a pressões humanitárias imediatas, mas também uma tentativa de corrigir um longo histórico de negligência estrutural em matéria de saúde mental e governação local (African NGOs, 2025; Climate Policy Initiative, 2024).​

Na região Ásia‑Pacífico, aproximadamente 15% da “pipeline” está a consolidar‑se em torno da “Inovação Azul” e de tecnologias costeiras inteligentes para o clima, alinhando‑se com um corpo crescente de trabalhos que enquadra a economia azul como uma via para conciliar conservação dos oceanos, meios de subsistência costeiros e resiliência climática através de investimento público e privado direcionado (Asian Development Bank, 2021; OceanPixel, 2023). Análises de “blue finance” defendem que soluções tecnológicas — como energias marinhas renováveis, sistemas de observação oceânica ou infraestruturas costeiras inteligentes — têm de ser combinadas com formas inclusivas e participativas de governação dos oceanos se quiserem evitar a reprodução de desigualdades existentes no acesso a recursos e benefícios marinhos (Asian Development Bank, 2021; OceanPixel, 2023). Para organizações que atuam em ilhas e zonas costeiras baixas, este segmento da “pipeline” de 2026 recompensa, por isso, propostas que integram inovação com gestão comunitária de recursos e princípios de transição justa (Asian Development Bank, 2021; Global Green Growth Institute, 2014).​

A Europa e a América do Norte representam cerca de 20% das oportunidades identificadas, com forte ênfase em investigação científica avançada, inteligência artificial e transições sociais sistémicas (European Commission, 2025a; European Commission, 2025b). Iniciativas como os projetos‑piloto europeus de IA na ciência e a agenda GenAI4EU ilustram como a IA e as infraestruturas de dados são cada vez mais tratadas como sistemas sociotécnicos que reconfiguram serviços públicos, mercados de trabalho e participação democrática, em vez de meras ferramentas neutras (European Commission, 2025a; European Commission, 2025b). Para a sociedade civil e as organizações sem fins lucrativos, isto implica que os papéis de advocacia e “watchdog” precisam de evoluir rapidamente para interagir com governação algorítmica, direitos de dados e consequências distributivas das transformações impulsionadas pela IA, posicionando estas organizações como interlocutores críticos entre inovação tecnológica e justiça social (European Commission, 2025b; United Nations Conference on Trade and Development, 2024).​

Os 10% remanescentes da “pipeline” de 2026 dirigem‑se à América Latina e Caraíbas, com foco em direitos digitais, pescas participativas e mobilidade laboral inclusiva, em contextos marcados por desigualdade persistente e pela aceleração da plataformização do trabalho (Organisation for Economic Co‑operation and Development, 2024; International Labour Organization, 2024). Estudos laborais e sociológicos recentes na região mostram como as plataformas digitais de trabalho intensificam a precariedade através de algoritmos opacos, fraca proteção social e representação coletiva fragmentada, reforçando a necessidade de inovação regulatória e de advocacia baseada em direitos (Manky et al., 2025; The Labor Market of Digital Labor Platforms in Chile, 2025). Estas evidências dão suporte analítico ao interesse crescente dos financiadores em iniciativas que defendam direitos digitais, fortaleçam a organização de trabalhadores e experimentem novos modelos de governação para trabalho em plataformas e mobilidade laboral (International Labour Organization, 2024; Manky et al., 2025).​

Visto por este prisma, 2026 é menos um ano de calendário neutro e mais um teste de stress à capacidade estratégica em todo o ecossistema da sociedade civil. Organizações que continuarem a encarar a mobilização de recursos como um exercício reativo, caso a caso, arriscam‑se a marginalizar‑se num cenário que recompensa cada vez mais estratégias de longo prazo orientadas para portfólios, produção robusta de evidência e construção de coligações transregionais (Fundraising Dispatch, 2026; African NGOs, 2025). Pelo contrário, organizações que articularem uma especialização temática — em domínios como MHPSS, economias azuis, direitos digitais ou governação da IA — com arquiteturas sofisticadas de parceria e teorias de mudança claras estarão melhor posicionadas para tratar o financiamento como instrumento de transformação de sistemas e não apenas de sobrevivência (Asian Development Bank, 2021; United Nations Conference on Trade and Development, 2024). Neste sentido, a geografia e a composição temática da “pipeline” de 2026 convidam líderes da sociedade civil a ler cada concurso não apenas como oportunidade financeira, mas como convite a co‑desenhar a próxima geração de instituições, normas e infraestruturas que sustentam a dignidade humana (Organisation for Economic Co‑operation and Development, 2024; United Nations Conference on Trade and Development, 2024).

Referências:

African NGOs. (2025, December 2). African NGO funding opportunities – December 2025 & January 2026https://africanngos.org

Asian Development Bank. (2021). Blue economy and blue finance: Toward sustainable development and ocean governance. Asian Development Bank.

Climate Policy Initiative. (2024). Landscape of climate finance in Africa 2024. Climate Policy Initiative.

Duman, Y., Meier, J., & Marzouk, H. (2024). Beyond survival: Transformative impacts of integrating mental health and livelihood support in conflict zones. Journal of Transformative Justice, advance online publication.

European Commission. (2025a, October 7). €100 million AI in science pilot projects under Horizon Europe 2026–27. EURAXESS.

European Commission. (2025b, December 18). GenAI4EU: Funding opportunities to boost generative AI “made in Europe”https://digital-strategy.ec.europa.eu

Fundraising Dispatch. (2026, January 1). Planning your 2026 fundraising strategy? https://www.fundraisingdispatch.com

Global Green Growth Institute. (2014, May 5). Blue economy & coastal resilience building: Climate smart solutions for sustainable livelihood in Asia/Pacific.

Impact Funding. (2025, December 15). Mid‑December update: 46 new funding opportunities! Substack. https://impactfunding.substack.com

International Labour Organization. (2024). The rise of digital labour platforms in Latin America: Employment, rights and regulation. International Labour Organization.

Manky, O., Veras de Oliveira, R., & Bridi, M. A. (2025). Platform work and labour disempowerment in Latin America. Journal of Labour and Employment Studies, 3(2), 45–67.

Organisation for Economic Co‑operation and Development. (2024). Latin American economic outlook 2024: Financing sustainable development. OECD Publishing.

OceanPixel. (2023). Activating sustainable growth in Southeast Asia: The future blue economies. OceanPixel.

Rahim, A. A., Abdul Manaf, R., Juni, M. H., & Ibrahim, N. (2021). Health system governance for the integration of mental health services into primary health care in the Sub‑Saharan Africa and South Asia region: A systematic review. SAGE Open, 11(3).

The Labor Market of Digital Labor Platforms in Chile: Companies, State and Workers. (2025). Frontiers in Sociology, 10, Article 1673277.

United Nations Conference on Trade and Development. (2024). World investment report 2024. United Nations.

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