“O negócio de cariz social representa um elemento crucial na transição da nossa atual civilização baseada na ganância para uma civilização fundamentada nos valores humanos mais profundos da solidariedade e do cuidado. Trata-se de uma transição que temos de concluir com sucesso se quisermos transmitir um modo de vida verdadeiramente sustentável às gerações que se nos seguirão.”

— Muhammad Yunus, Prémio Nobel da Paz

A todos os meninos e meninas que foram obrigados a deixar a sua terra natal e adaptar-se a uma cultura que vos recebe com estranheza, eu vos escuto e compreendo.

A sina do cabo-verdiano sempre foi sobreviver numa terra seca ou partir.

Inspirada pela alma migrante do nosso povo e pelos recentes acontecimentos internacionais da nossa atualidade, reflito neste nosso mundo e na minha crença pessoal que a nossa diferença tem possibilitado em muito a evolução humana.

Eu vivi em Portugal num tempo em que se dizia que não existia racismo. Mas ele estava lá — silencioso, estrutural — funcionando como uma sombra em todos os espaços onde não há representatividade. Percebi o quanto é que os modelos e as referências são importantes para incentivar os jovens a terem confiança simplesmente para sonhar.

A exclusão torna-se evidente onde não existem mulheres, pessoas de diferentes etnias ou culturas, ou pessoas com diferentes tipos de deficiência, ou opções sexuais. Elas não são incluídas nas decisões e tornam-se invisíveis.

O perigo da invisibilidade é a criação de uma realidade em que muitos de nós simplesmente não existimos.

Nos cargos de liderança em que muitas mulheres não estão representadas, temos o perigo de contextos desenhados apenas para a atuação masculina.

Lá onde não encontramos a participação de pessoas com diferentes históricos culturais, desenhamos um mundo com a visão do homem ocidental, não aplicável aos diferentes contextos religiosos, crenças e hábitos ou preferências sexuais.

Quando projetamos um edifício pensado apenas para quem não tem limitações de locomoção, visão, audição, ou outros, estamos implicitamente a decidir quem pode entrar e quem fica de fora.

Estes são apenas alguns exemplos que nos demonstram quantas pessoas acabam por não ser tidas em conta no processo de desenvolvimento quando ele não é inclusivo.

É sobre estas realidades que opera o empreendedorismo social, um tipo de filosofia empresarial que privilegia a visão da solução de problemas sociais em que o bem-estar coletivo é a verdadeira moeda de troca.

A inovação social é a ferramenta que os empreendedores sociais usam para transformar um problema num negócio. Isto faz com que as empresas ou organizações alcancem um novo patamar não só de suprir as necessidades dos seus clientes, mas de resolver os seus desafios enquanto humanos, criando verdadeiro impacto na sua vida.

Se a expressão do evolucionismo existisse para o mundo empresarial tal como se aplica à evolução humana, poderíamos dizer que o empreendedorismo social é mesmo o próximo passo na inovação dos negócios.

A verdade é que são as nossas diferenças que nos levam a questionar o mundo a partir de múltiplas perspetivas — de género, de cultura e das próprias limitações que carregamos.

Categorias

pt_PT